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1 - Origem e História do Povo Cigano

Como o nome sugere, acreditava-se inicialmente que os Roma (Ciganos – do Grego  Aigyptioi) tinham vindo do Egipto. Contudo, foram um grupo de pessoas que partiram da Índia no século X ou XI depois de Cristo. A causa da Diáspora Cigana é desconhecida.

Uma teoria sugere que, depois de deixarem a Índia, os Ciganos emigraram para oeste para o Irão (Pérsia) e para a Península Arábica. Alguns grupos deslocaram-se para oeste para Bizâncio e Transcáucaso, alcançando a Europa por volta de 1250. Por volta dos anos 1300, a sua migração tinha alcançado o Sudeste da Europa; por volta dos anos 1400, a Europa Ocidental.

Foram-lhes atribuídos muitos nomes: Gypsies, Gitanos, Gitans (isto é, Egípcios), Zigeuner, Tsiganes e Cingaros.

O povo Cigano já era conhecido em Bizâncio nos meados do século XI, quando começou a deslocar-se para Constantinopla. A presença de palavras arménias em todos os dialectos dos Ciganos europeus indica que os Ciganos vieram para Bizâncio da Arménia. Em qualquer caso, na segunda metade do século XIV, os Ciganos estavam presentes nas regiões do Sul da Península Balcânica.

A fixação em massa dos Ciganos teve lugar nos séculos XIII e XIV na Bulgária. Alguns deles fixaram-se permanentemente e outros tornaram-se nómadas.

A partir da segunda metade do século XIV, há mais evidência de grupos de Ciganos a dispersar-se para outras partes da Europa.

No século XV, por altura do reinado dos Reis Católicos, os Ciganos já viajavam pela Península Ibérica. Algumas famílias fixaram-se em lugares como a Andaluzia, o reduto dos Ciganos. A história dos Ciganos Espanhóis é a história de um choque cultural entre uma comunidade nómada e uma sedentária. Começou um longo período de perseguição, durante o qual a diversidade cultural dos Ciganos foi um alvo. Eles foram proibidos de usar a sua Língua e o vestuário tradicional, foram forçados a fixar-se, a abandonar os seus ofícios tradicionais e a servir um senhor.

Em Portugal, a primeira evidência da presença dos Ciganos data de 1521. Em 1525, foi proibida a entrada dos Ciganos no Reino Português. Os Ciganos foram deportados para África e para o Brasil e desta forma a diáspora expandiu-se para outros continentes. Ao longo do resto do século XVI e da primeira parte do século XVII, fizeram-se leis contra os Ciganos. Em 1822, foi reconhecida a cidadania aos Ciganos.           

Nas Ilhas Britânicas, acredita-se que a chegada dos Ciganos ocorreu na segunda metade do século XV, entrando pela Escócia a partir da Dinamarca. Eram referidos como ‘peregrinos egípcios’ em fontes mais antigas. Muitas leis repressivas foram elaboradas a partir de 1530, proibindo os Ciganos de entrar em Inglaterra e País de Gales e forçando os que já estavam nos países a partir. Estas leis começaram a ser abolidas gradualmente antes de 1856.

Na história mais recente, o século XIX teve um significado especial para os Ciganos europeus. Durante o Iluminismo, a investigação começou a fornecer a este povo uma história e identidade legítimas. Ao mesmo tempo, os meados do século XIX testemunharam a emergência do Racismo Científico, o qual conduziu à tentativa de destruição do povo Cigano pelo Terceiro Reich de Hitler.

O século XX foi dominado por dois acontecimentos principais: o Holocausto e o colapso do Comunismo na Europa de Leste. Também testemunhou a emergência da actividade política organizada dos Ciganos, a qual floresceu depois da Primeira Guerra Mundial, principalmente na Europa de Leste.  

Em Janeiro ou Fevereiro de 1940, o primeiro homícidio em massa do Holocausto teve lugar no campo de concentração de Buchenwald, quando 250 crianças ciganas de Brno foram usadas como cobaias para testar Zyklon-B, mais tarde mortas nas câmaras de gás em Auschwitz-Birkenau. Na Checoslováquia, foram construídos campos especiais para exterminar os Ciganos em Lety e Hodonín. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Ciganos foram deportados dos países aliados da Alemanha como Itália, Eslovénia, Croácia e Roménia.

Durante os anos do pós-guerra, o povo Cigano foi praticamente silenciado na Europa. A actividade política era mínima e os Ciganos eram mesmo relutantes em identificar publicamente a sua etnicidade.

Nas décadas de 1950 e 1960, tiveram lugar novas ondas de migração na Europa.

Depois da queda dos regimes comunistas, trabalhar no estrangeiro generalizou-se entre os Ciganos oriundos dos antigos países comunistas. Os seus principais destinos foram Grécia, Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha, Bélgica, Holanda e Reino Unido.

2 - Distribuição Geográfica do Povo Cigano

2.1 - População

Não é fácil responder à questão “O que é o Povo Cigano actual?”. Por um lado, os representantes oficiais de muitos países querem “minimizar” o número de Ciganos a viver no seu país enquanto por outro lado muitos activistas ciganos tendem a referenciar números mais altos.

Com uma população na Europa estimada entre os 8 e os 12 milhões, podem ser encontrados em toda a parte – da Finlândia à Grécia e da Irlanda à Rússia – mas não têm “pátria”. Os números maiores de Ciganos vivem na Europa de Leste Central: Roménia, Eslováquia, Bulgária, Hungria e a antiga Jugoslávia.

De acordo com os números publicados pelo Conselho da Europa em 2007, o número total de Ciganos e Nómadas era de 9,855,382 pessoas.

Uma representação destes números pode ser encontrada no gráfico seguinte:

  • No Reino Unido, os Ciganos referem-se a si próprios como ‘Romanichéis’ ou ‘Ciganos Galeses e Ingleses’. As outras duas populações itinerantes são os Viajantes Irlandeses e os Viajantes Escoceses.
  • Em Espanha, a Andaluzia tem sido sempre vista como o reduto dos Ciganos, onde muitos Ciganos têm vivido e actualmente vivem lá mais de metade de todos os Ciganos Espanhóis.
  • Em Portugal, a maioria dos grupos ciganos vive em regiões com uma densidade populacional mais alta, tal como Lisboa. Os grupos Ciganos estão concentrados principalmente nas regiões ao longo da costa portuguesa, com uma densidade populacional mais elevada e nas regiões costeiras.
  • Na Bulgária, não há cidade no país onde não haja alguns representantes de famílias ciganas. Actualmente, todos os Ciganos são sedentários.
  • Na Roménia, os Ciganos constituem uma das maiores minorias (cerca de 2,5%). Há muitas razões porque muitos Ciganos não declaram a sua etnicidade no censos: não têm um cartão de identidade ou uma certidão de nascimento; receiam a discriminação ou devido ao processo de assimilação étnica.
  • Na Hungria, há uma minoria cigana considerável a viver em Budapeste.
  • Em outros países Europeus tais como França, Itália, Antigos Estados Jugoslavos, países Escandinavos, etc, há também grupos ciganos a viver lá, mas são menos numerosos.

2 - Distribuição Geográfica do Povo Cigano

2.2 - Grupos de Ciganos

Os Ciganos reconhecem que há divisões entre eles baseadas em parte em diferenças territoriais, culturais e dialectais.
Algumas autoridades reconhecem cinco grupos diferentes com base na sua dispersão geográfica:

  • os Kalderaši (os mais numerosos, trabalhavam tradicionalmente como ferreiros, oriundos dos Balcãs, muitos dos quais migraram para a Europa Central e América do Norte)
  • os Gitanos (também chamados Calé, maioritariamente na Península Ibérica, África do Norte e Sul de França)
  • os Manush (também conhecidos como Sinti, maioritariamente na Alsácia e outras regiões de França e Alemanha)
  • os Romnichal (Romanies) (principalmente no Reino Unido e América do Norte)
  • os Erlides (também conhecidos como Yerlii) (população cigana fixada no sudeste da Europa e Turquia).

De acordo com outra teoria, há quatro correntes principais de grupos de Ciganos com base nos dialectos que falam:

  • Os Ciganos dos Balcãs, com um vocabulário turco muito alargado (Arlii, Erlii, Jerlides, Sepečides, Bugurdži,  Kalajdži, Drindari.);
  • Os Ciganos Vlax que migraram para a actual Roménia e têm uma grande influência romena nos seus dialectos (Servi, Vlaxurja, Rišarja, Kalajdži, Vlax, Džambaši, Laxora, Gurbeti, Cerhara, Âurar, Mačvaja, Patrinara, Lovara, Dirzara, Mašara, Kalderaši, Rudari, Bejaša, Ursari, Lingurari e Gurvara);
  • Os Ciganos dos Cárpatos, encontrados nas Repúblicas Checa e Eslovaca, na Hungria e na Áustria com uma camada mais forte de lexemas eslavos na sua Língua  (Czech, Moravian, Hungarian, West e East Slovakian e Burgenland Rroma) ;
  • Os Ciganos Nórdicos, com uma forte influência alemã (Abruzesi, Calabresi, Cale, Kaale, Lotfitka, Manouches, Volšenenge, Polska, Sinti, e Xaladitka).

3 - Organização social específica

O primeiro e mais importante nível da organização social para o povo Cigano é a família. A família pode ser bastante grande e incluir várias gerações e é o centro da vida cigana.  
A organização social de todas as comunidades ciganas baseia-se no conceito da família patriarcal. Tudo gira à sua volta. O homem é o chefe da família, sustentando-a e defendendo a sua reputação. Isto dá-lhe o direito de ser a autoridade inquestionável e de tomar decisões importantes. A mulher, educada de uma forma conservadora, é aquela que assegura a continuação da tradição no grupo. A mulher toma conta da casa e das crianças. Os mais velhos, especialmente os avôs, são os mais respeitados. São os que têm maior experiência e consequentemente é-lhes pedido conselho já que são os mais sábios da família.
As alianças Matrimoniais são um elemento essencial na organização social e variam consideravelmente de grupo para grupo cigano.

O segundo nível é a linhagem, isto é, a família alargada. As linhagens adoptam os nomes de alguns líderes antigos ou antepassados. Por exemplo, Jonešti deriva de Jono (John), Miheješti deriva de Mihai (Michael), etc.

O terceiro nível da organização é o grupo "sub-étnico", como Kalderaši, Lovari, Sinti, Čurara, Mačvaja, Zlotara,etc. Os grupos são de certa forma entidades históricas que estão ligadas por uma história comum assim como por tradições e Língua comuns e algumas vezes por negócios comuns. A pertença a um certo grupo é considerada mais importante do que o simples facto de ser Cigano.

O ultimo nível é a identidade étnica, nomeadamente o conceito de ser Cigano, ou, como oposição, Gadže ou não-Cigano.
A viagem deveria ser considerada mais como uma mobilidade potencial do que como nomadismo. Viajar permite a organização social, garante adaptabilidade e flexibilidade e permite o exercício profissional, portanto também tem uma função económica. Isso é óbvio em certas ocupações: vendedores ambulantes que seguem as datas de festas e feiras, negociantes de cavalos em feiras de gado, trabalhadores agrícolas nas épocas da fruta, colheita da uva e da azeitona, por exemplo.
A Bretanha é talvez o único país onde as comunidades Ciganas mantêm um estilo de vida itinerante, vivendo em caravanas em designados acampamentos. A maioria das famílias tende a fixar-se no mesmo acampamento por períodos de tempo mais longos. Isto facilita tanto a frequência da escola como a manutenção de redes de clientes e contactos comerciais. As famílias habitualmente viajam durante os meses de Verão para as feiras e reuniões familiares mais alargadas. A família alargada é tanto a unidade doméstica como a produtiva.

4 - Costumes e Tradições

As tradições são transmitidas de avós e pais para os filhos e netos. Estas tradições ciganas criam os Romanimos ou Romanipen – isto é a identidade Cigana. Para os Ciganos, a "unidade" é constituída pela família e pela linhagem. As tradições cobrem todos os aspectos da vida.

Um acontecimento importante da vida cigana é o nascimento de uma criança.

Em Portugal, o nascimento de crianças marca o reconhecimento do homem pela sua comunidade. Com o filho primogénito, o homem alcança um nível mais alto e é visto como um verdadeiro chefe de família com autoridade autónoma. Também marca o estatuto das mulheres porque elas ganham alguma influência e poder, e já não ficam sob o controlo rígido da mãe do seu marido.

Entre as comunidades ciganas búlgaras, depois do nascimento, o bebé é lavado ritualmente em água salgada na qual se misturam moedas para a saúde e flores primaveris, se o nascimento ocorrer na Primavera. Os pais, parentes e amigos reúnem-se à volta de uma mesa com bolos, comendo mel, halva e queijo. Não se serve álcool com os bolos. Dá-se dinheiro e roupas ao bebé.

Na Bulgária, também há o costume do primeiro corte de cabelo do bebé. É feito no pátio por um barbeiro profissional, acompanhado por música, brincadeiras e um jantar festivo.

O primeiro passo na vida de um recém-nascido é o baptismo, quando lhe é dado o nome. Todos os membros da família e muitos membros do clã estão presentes nesta ocasião. A escolha do padrinho e madrinha é importante porque são considerados como segundos pais da criança, ajudando-os em todos os momentos difíceis ou importantes da sua vida. São membros importantes da família alargada. O baptismo tem lugar na igreja – católica, ortodoxa ou protestante – e depois disso, todas as pessoas que estão na festa comem, bebem e divertem-se.

Claro que os Ciganos muçulmanos nos Balcãs não praticam baptismos. Uma tradição muito celebrada pelos Ciganos muçulmanos é o “syunet”, ou circuncisão de rapazinhos quando têm cerca de sete anos. É habitualmente realizada por um muçulmano rico chamado “syunetchiya”. As crianças desfilam num cavalo enfeitado, sobre o qual é colocado um cobertor colorido chamado um “Asha”. A celebração é acompanhada por corrida de cavalos, luta e outras corridas populares.

Outro acontecimento importante para os Ciganos é o Casamento. Historicamente, entre os 15 e os 17 anos de idade para os rapazes, para as raparigas entre os 14 e os 16, dentro da comunidade. Contudo, na maioria dos lugares, os casamentos ciganos raramente são registados oficialmente.

As noivas disponíveis para o filho de alguém são procuradas de boca em boca, isto é, os Ciganos contam uns aos outros sobre raparigas com a idade certa para casar. O pai e a mãe do futuro noivo visitam por vezes os pais da rapariga. Os pais do rapaz procuram uma futura nora que seja bonita, rica e de uma família conhecida. Se eles (e os futuros noivos) gostarem da união, pode começar a cerimónia correspondente ao noivado. Em alguns grupos, é pago dinheiro pela noiva – algumas vezes grandes somas de dinheiro. Esta tradição de "comprar" a noiva permanece muito viva entre os Ciganos Vlach e especialmente entre os Kalderaši. 

A escolha e a última decisão são tomadas pelos pais. Entre os Kalderaši, há por vezes acordos de noivados, quando as crianças ainda são por vezes muito jovens. Em qualquer caso, se o casamento não se realizar, ou os pais do rapaz ou os pais da rapariga têm de pagar uma multa.

Outra tradição bem preservada, realizada no dia anterior ao casamento é a pintura com hena da noiva. Está melhor preservada entre as comunidades muçulmanas de Ciganos. O ritual começa à meia-noite. A noiva é pintada com hena nos dedos e palmas de ambas as mãos, e depois nos dedos de ambos os pés. Este ritual é acompanhado com a dádiva de dinheiro num pano branco, o qual se envolve à volta das mãos e dos pés da noiva. A lona branca á atada com um fio vermelho e juntos simbolizam a integridade da jovem noiva.

A pintura com hena é feita por uma mulher velha e influente que só se tenha casado uma vez e nunca tenha traído o marido. Ela e todos os parentes mais velhos abençoam o jovem casal.

No dia do casamento, estão presentes os parentes do acampamento e mesmo de outras aldeias ou cidades. São honrados com uma abundância de comida e bebidas e apresentados pelos pais dos recém-casados. A partir desse momento, os pais do noivo e da noiva consideram-se parentes.

No casamento, todos os convidados dão prendas aos recém-casados, algumas vezes dinheiro, e eles devolvem a cortesia dando-lhes pequenos presentes. Tradicionalmente, todos os convidados esperam pelos sinais de sangue que provam a virgindade da rapariga. Se a noiva não provar que é virgem, o casamento por vezes é anulado e a noiva é devolvida aos pais e o dote é devolvido ao grupo que pagou pela noiva.

Existe outra tradição entre alguns grupos de Ciganos:  o rapto da rapariga pelo rapaz ou muitas vezes a fuga do jovem casal quando os pais não concordam formalmente com o casamento. Alguns dias depois, o jovem casal regressa e o casamento é então celebrado. Depois do casamento, a rapariga usa um lenço na cabeça. Ela não pode mostrar o cabelo a ninguém a não ser ao marido. Esta tradição está a desaparecer nas grandes cidades.

Tradicionalmente, a noiva vai viver com a família do marido. Na comunidade cigana espanhola, confirma-se que o casal está junto, quando têm o primeiro filho; o homem e a mulher entram na idade adulta.

Se o casamento não resultar, o divórcio é permitido entre os Ciganos. Isto pode acontecer ou por mútuo consentimento ou ser julgado no Kris. Uma vez divorciados, ambos são livres de voltar a casar.

As comunidades ciganas também têm costumes e rituais específicos relacionados com a morte e funerais. Algumas das tradições mais típicas para a morte e enterro encontram-se entre os Kalderaši cristãos. Quando morre alguém na família, os seus parentes próximos compram um caixão e colocam nele o falecido vestido com as suas melhores roupas. Algumas vezes, são colocados no caixão os objectos queridos do falecido. Durante três dias e três noites, o falecido e o caixão permanecem em casa, mantendo a família uma vigília. No quarto dia, o falecido é levado para o cemitério, sendo sepultado em túmulos elaborados.

Para os Ciganos muçulmanos, o costume do enterro envolve dar algum dinheiro aos parentes do falecido (iskati).

Historicamente, a caravana e toda a propriedade do falecido são queimados e este ritual ainda hoje é realizado pelos Ciganos nómadas na Europa do Norte. Em Espanha, vendiam os cavalos ou animais e queimavam o carrinho do falecido, e hoje há famílias que ainda queimam as suas roupas. Estes eram actos de purificação de origens orientais. Hoje, os Ciganos espanhóis são habitualmente sepultados, como os outros cidadãos, em cemitérios. O velório realiza-se sempre em casa do falecido, mas estão a começar a usar funerárias. Usam roupas pretas enquanto estão de luto.

Outra parte importante das tradições ciganas é dedicada às regras rituais sobre a limpeza e a sujidade. Por exemplo, desde a sua primeira menstruação até à menopausa, considera-se que a rapariga não é potencialmente limpa e pode assim sujar o homem. Não é permitido ao homem tocar na saia da mulher e por outro lado não é permitido às mulheres sentarem-se junto das ferramentas de trabalho. Se isto acontecer, todo o trabalho fica sujo e tem de ser tirado fora ou partido. Quando um Cigano é considerado ritualmente sujo, ele não pode comer e beber juntamente com outros Ciganos, só o pode fazer juntamente com os seus parentes mais próximos. Isto continua até ao momento em que termina a sujidade. Outras coisas são consideradas ritualmente sujas. Como por exemplo, as seguintes: comer e beber de pratos ou recipientes no chão; lavar em conjunto as roupas dos homens e das mulheres, lavar juntamente as roupas usadas nas partes de cima do corpo e as roupas usadas na parte de baixo do corpo, etc. Estas tradições ainda estão muito vivas entre grupos ciganos muito diferentes – mais entre os Kalderaši, Lovari, Sinti e Travellers na  Inglaterra.

O exemplo judicial mais elevado das estruturas sociais ciganas é o Kris. Este “Tribunal Cigano” é de facto um tribunal arbitral. Os membros deste tribunal são escolhidos de entre os Ciganos da comunidade mais considerados, honestos e inteligentes. A pena mais grave aplicada pelo kris é a expulsão da comunidade, ou por um determinado período de tempo ou permanentemente. Esta é uma pena severa já que um Cigano não pode existir sem as estruturas sociais ciganas. Esta pena é mais temida do que a morte. Mas deve dizer-se que nenhum kris alguma vez aplicou a pena de morte. Um kris não tem o direito de tirar a vida a um Cigano. O kris também aplica outras penas, como por exemplo multas (por vezes bastante altas), a ser pagas pela parte culpada.

A tradição ainda está viva, mesmo nos países da Europa Ocidental, onde os Ciganos, de modo geral, ainda continuam a resolver disputas internas dentro da comunidade.

5 - Cultura romilor și influența sa asupra culturii locale.

5.1 - A cultura espiritual Cigana

A cultura cigana é diversa, mas há atributos comuns a todos os Ciganos: lealdade com a família; crença em Del (Deus) e Beng (o Diabo); crença no destino, etc.. A cultura cigana tem dois aspectos principais – o espiritual e o material.

Os Ciganos habitualmente adoptam a religião dominante do país de acolhimento, mas preservam aspectos da sua religião e devoção originais.

Oficialmente, uma grande parte dos Ciganos nos Balcãs e na Crimeia são muçulmanos. Todos os outros Ciganos são cristãos: Católicos, Ortodoxos e alguns Protestantes. Um número crescente de Ciganos juntou-se a movimentos Evangélicos. As igrejas ciganas Evangélicas existem actualmente em quase todos os países onde os Ciganos vivem. O movimento é particularmente forte em França e Espanha. Outros juntaram-se à Igreja de Pentecostes ou outras congregações, como a Igreja Baptista, a Igreja Adventista do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová.

Além da religião a que pertencem, as crenças tradicionais dos Ciganos são muito dualistas: por um lado Del ou Devel (Deus), a fonte do Bem, luz e o protector dos homens; por outro lado Beng, o Diabo, a fonte do Mal, trevas e o tentador dos homens.

A tradição popular oral – histórias, canções, lendas, provérbios, rimas, poesia popular, etc. não tinham sido gravadas ou catalogadas até há poucos anos atrás. O folclore cigano é certamente o seu maior património cultural. Há uma forte tradição de música cigana na Europa de Leste e Central, em países como a Hungria, Roménia, Bulgária e os estados da antiga Jugoslávia. Uma parte da música cigana baseia-se na música folclórica dos países por onde os Ciganos viajaram ou onde se fixaram. A música cigana influenciou enormemente a música local. Na Bulgária, por exemplo, as canções e danças ciganas são uma mistura das tradições populares ciganas com as dos Balcãs. Na Europa Ocidental, o flamenco espanhol é a música (e dança, ou mesmo a cultura) dos Ciganos na Andaluzia.

Medicina popular, principalmente propagada na Bulgária mas também nos outros países dos Balcãs e Roménia, é o resultado da sua desconfiança pela medicina tradicional e da falta de fundos para tratamento especializado. Muitas famílias ciganas mantêm até aos dias de hoje a capacidade de curar com ervas e especialmente com preparados de poções e unguentos naturais, passando o conhecimento de geração em geração.

Os valores ciganos fundamentais também são uma parte integrante da cultura cigana. Eles giram à volta da liberdade individual e colectiva, família, filhos, diversão e tradições.

5 - Cultura Cigana e Influência na Cultura Local

5.2 - A Cultura Material Cigana

A cultura material cigana é o resultado de ofícios ciganos típicos e dos seus trabalhos. Os negócios tradicionais são inseparáveis dos grupos ciganos já que eles são um dos fundamentos mais fortes da identidade do grupo. Estes negócios, excepto a leitura da sina, são trabalho do homem. As mulheres também estão envolvidas, ajudando os maridos, irmãos e pais no trabalho.
Os negócios mais importantes são: metalurgia, negócio de cavalos, música profissional e carpintaria. Nos dias de hoje, encontramos Ciganos em todas as profissões: advogados, médicos, professores, assim como, mecânicos, agricultores, etc.

  • 1. Trabalho com metais
    - Ferraria. A profissão de ferreiro é uma das mais antigas entre os Ciganos. Costumava ser a profissão principal dos Ciganos dos Cárpatos e dos Balcãs. O negócio de ferraria inclui a manufactura de instrumentos agrícolas, artigos da casa, produtos de ferro para construção e instalação, fechaduras, etc. Actualmente, os melhores ferreiros fazem objectos de ferro forjado tais como rendilhado de ferro ornamental.
    - Trabalho com cobre. Outra profissão relacionada com o trabalho com metais é a manufactura de caldeirões e panelas. Esta profissão, ainda praticada hoje por muitos grupos de Ciganos, encontra-se principalmente nos Balcãs, Roménia e Hungria. Está associada essencialmente aos Kaldaraši, cujo nome vem do Romeno - căldărar/căldăraş,  caldeireiro.
    - Trabalho com oiro e prata. Entre os Ciganos – principalmente na Roménia – também se encontram joalheiros. Eles obtêm o metal de moedas de prata antigas e jóias que lhes são vendidas pelas populações locais.
  • 2. Trabalho com madeira.
    Outro negócio, a talha em madeira, foi trazida da Índia pelos Ciganos. Na Bulgária, a cestaria e a transformação da madeira também são um negócio tradicional. São usados materiais como a avelã, a faia e o vime.           
  • 3. Música
     A música é um dos negócios tradicionais dos Ciganos mais populares. Este negócio é um ofício tradicional de gerações de famílias ciganas e é transmitido de pai para filho e praticado num grupo ou banda. É tocada em diferentes ocasiões como casamentos, festas, feiras e não requer conhecimento de notas musicais. Os instrumentos usados, por ordem de popularidade, são: o violino, o alaúde, o xilofone, o acordeão, a guitarra, gaitas de pã, apito, pandeiros feitos de salgueiro, choupo ou cana, e o clarinete. A música cigana contém muita improvisação; é espontânea, ritmicamente rica, tem facetas melódicas variadas e combina o uso do tempo com mudanças de ritmo.
    A música cigana é muito importante nas culturas da Europa de Leste e o estilo e as representações dos músicos ciganos influenciaram compositores clássicos tais como Franz Liszt e Johannes Brahms. O som distintivo da música cigana influenciou fortemente o bolero, o jazz, o flamenco e o Cante Jondo na Europa.
  • 4. Outros negócios
    - Especializações itinerantes
    Na Bretanha, talvez o único país onde as comunidades ciganas tradicionais mantêm um estilo de vida espantosamente itinerante, os Ciganos Romani trabalham quase todos por conta própria e tendem a manter um portefólio de especializações itinerantes. Estas incluem vendas de produtos (cobertores, lençóis, carpetes, artigos da casa); negócio de mercadorias em segunda mão (carros, caravanas, roupas, mobiliário); criação de cavalos e cães de raça; recolha de produtos descartados e lixo, especialmente sucata; construção de exteriores e jardinagem e ofícios ciganos especializados: roupas feitas à mão, cestos de madeira, amuletos da sorte e rendas, afiação de facas, leitura da sina.

    - Trabalho sazonal agrícola
    É praticado como um estilo de vida semi-nómada pelos Ciganos que viajam pelo campo e oferecem o seu próprio trabalho na agricultura.

    - O negócio da “Mala”
    Na Bulgária, o negócio da "Mala” desenvolveu-se como uma espécie de negócio que fornecia roupa barata e pequenas e raras mercadorias industriais de países vizinhos. No início, a produção era feita numa tenda improvisada nas cidades, mas actualmente os negociantes têm as suas próprias lojas. Em Espanha e Portugal, as ocupações tradicionais dos grupos ciganos são pequenos negócios, que mobilizam toda a família, como a venda de roupa, calçado, carpetes, etc., em feiras e mercados.

    - A leitura da sina
    Desde os tempos mais antigos, os Ciganos têm sido conhecidos por praticarem a arte de ler a sina. Usavam muitos métodos, desde bolas de cristal, cartas de tarot (diz-se que os Ciganos inventaram este tipo de cartas) e leitura da mão. As mulheres que lêem a sina dizem que os seus poderes são sobrenaturais. Como regra, não lêem a sina a outros Ciganos. Na sua comunidade, têm outras maneiras de prever o futuro e curar. Os Ciganos usam muitas vezes amuletos da sorte e talismãs para afastar os problemas, os maus espíritos e as doenças. Também usam ervas para curar as doenças, tendo muitas delas propriedades farmacêuticas, também testadas pela medicina tradicional.

    - Trabalhar no estrangeiro
    Depois da queda dos regimes comunistas, trabalhar no estrangeiro tornou-se um modo de vida para dezenas de milhares de Ciganos da Europa de Leste. Os destinos preferidos são a Grécia, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Bélgica, Holanda e Inglaterra. Habitualmente, os homens vão primeiro e depois vão as esposas e os filhos. Uma parte significante deles, contudo, prefere investir o seu dinheiro nos seus países, na construção de casas, na compra de terras, animais e carros e a desenvolver o seu próprio negócio.

5 - Cultura Cigana e Influência na Cultura Local

5.3 - Personalidades

Entre as personalidades Ciganas mais conhecidas na cultura mas também noutras áreas, devem ser mencionadas:

  • Roménia :
    Anton Pann (Antonie Pantoleon Petroveanu) - poeta, compositor de música religiosa, folclorista;  compôs a música do hino nacional da Roménia.           
    Fănică Luca (Iordache Luca Ştefan) tocador de flauta de pã e cantor cigano, foi considerado um dos mais talentosos tocadores de flauta de pã de todos os tempos.
  • Portugal :
    Quaresma  –  famoso jogador de futebol.
  • Espanha:
    Juan De Dios Ramírez Heredia– o primeiro Cigano que foi Membro do Parlamento em Espanha e do Parlamento Europeu. 
    Jose Heredia Maya - professor de Literatura Espanhola na Universidade de Granada; o mais importante poeta cigano de Língua espanhola de todos os tempos.
  • Bulgária
    Dr. Atanas Dimitrov  -  filósofo, conferencista e tradutor.
    Ivan Kirilov - magistrado e escritor.
    Professor Alexander Chirkov – Cirurgião cardíaco.
    Russi Zabunov- fundador da primeira organização Cigana na Bulgária.
  • Hungria
    Janos Balasz – artista conhecido pela sua arte e poesia naïve.
  • Alemanha
    Philomena Franz – Ela foi a primeira Sinti condecorada com a "Cruz Federal do Mérito", o prémio civil mais alto conferido na Alemanha.

Há muitas instituições e organizações actualmente a trabalhar ou envolvidas no desenvolvimento da comunidade Cigana nos Estados Europeus.

6 - Exercícios.

6.1 - Perguntas

  • 1) Quando chegaram os Ciganos à Europa Ocidental?
  • 2) Que país proibiu a entrada dos Ciganos e deportou os que lá viviam para o Brasil e África nos séculos XVI e XVII?
  • 3) Quando e como chegaram os Ciganos às Ilhas Britânicas? Como eram chamados?
  • 4) Em que período histórico, começaram as pessoas a mostrar interesse pelos Ciganos?
  • 5) Qual o número estimado da população cigana actualmente?
  • 6) De acordo com o Conselho da Europa, quais os dois países que tinham a maior população cigana em 2007?
  • 7) Quais as principais razões porque os Ciganos não falam sobre as suas origens?
  • 8) Quantos grupos ciganos há, considerando a sua dispersão geográfica? E as divisões baseadas nos seus dialectos?
  • 9) Em que país europeu é a população cigana maioritariamente itinerante?
  • 10) Em que consiste a tradição da pintura com hena da noiva? 
  • 11) Em que consiste a tradição do “rapto da rapariga pelo rapaz”? 
  • 12) O que é o “Kris”? Escreve sobre as suas principais características.
  • 13) O que significam as palavras “Del” e “Beng” para os Ciganos?
  • 14) Actualmente, os Ciganos trabalham em qualquer tipo de profissão, mas quais são os seus principais negócios tradicionais?
  • 15) Explica com as tuas próprias palavras o que é o “negócio da mala”.
  • 16) Escolhe três personalidades da cultura cigana e explica as razões porque as escolheste.

Para receber as respostas, por favor contacte-nos: info@romaninet.com

6 - Exercícios.

6.2 - Verdadeiro / Falso

  • 1) Os Ciganos são originários do Egipto.         
  • 2) No século XIV, houve uma fixação em massa de Ciganos na Bulgária.
  • 3) Os Ciganos foram bem recebidos na Andaluzia.
  • 4) No século XX, aumentou a actividade política dos Ciganos.
  • 5) Depois da Segunda Guerra Mundial, a comunidade cigana foi praticamente silenciada na Europa.
  • 6) A maioria da população cigana vive no sul da Europa.
  • 7) Mais de metade dos Ciganos espanhóis vive na Andaluzia.
  • 8) Em Portugal, a maioria da população cigana vive em Lisboa.
  • 9) A percentagem da população cigana na Roménia é de 25% , a mais alta da Europa.
  • 10) O padrinho e madrinha do baptismo são considerados membros da família.
  • 11) Entre os Ciganos, os casamentos ocorriam tradicionalmente numa idade muito jovem, sempre antes dos 14 anos.
  • 12) Depois do casamento, a noiva deve usar um lenço na cabeça já que não pode mostrar o cabelo aos outros, a não ser ao marido.
  • 13) O divórcio não é aceite entre os Ciganos.
  • 14) Os Kalderaši cristãos sentam-se junto da pessoa falecida em casa durante três dias e noites.
  • 15) A pena mais alta aplicada pelo Kris é a expulsão da comunidade.
  • 16) O flamenco espanhol é, em larga medida, a música dos Ciganos da Andaluzia.
  • 17) A música cigana é muito importante nas culturas da Europa de Leste.
  • 18) A arte de ler a sina é praticada por homens e mulheres.
  • 19) As mulheres ciganas são as que mais emigram dos antigos países comunistas.

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6 - Exercícios.

6.3 - Escolhe a resposta correcta

  • 1. O primeiro homicídio em massa do Holocausto teve lugar
    a) em Buchenwald com 250 crianças ciganas de Brno
    b) em Auschwitz-Birkenau com 2.500 ciganos da Bulgária
    c) em Buchenwald com 250 crianças ciganas da Bulgária
  • 2. Entre as comunidades ciganas búlgaras, depois do nascimento o bebé é ritualmente
    a) coberto com pétalas de flores e o seu cabelo é cortado em forma de lua cheia.
    b) lavado em pétalas de flores e é bebido álcool para celebrar o nascimento.
    c) lavado em água salgada e o seu cabelo é cortado por um barbeiro.
  • 3. O que é o “syunet”?
    a) Ocorre quando o rapaz tem sete anos e se torna responsável.
    b) É a circunsição de rapazinhos quando têm cerca de sete anos de idade.
    c) É uma celebração cigana acompanhada por corridas de cavalos e luta.
  • 4. Uma tradição entre os Ciganos Vlach e especialmente entre os Kalderaši relacionada com o casamento é
    a) casar as raparigas com pessoas de outras comunidades.
    b) comprar a noiva, pagando grandes somas de dinheiro.
    c) marcar as iniciais do noivo na pele da noiva e vice-versa, quando são crianças, como sinal de noivado.
  • 5. Em Espanha, quando um cigano morre, as suas roupas
    d) são queimadas como um acto de purificação.
    e) são dadas a outros membros da comunidade.
    f) são deitadas fora.
  • 6. A música Romani influenciou muito
    a). os compositores clássicos europeus, tais como Franz Liszt e Johannes Brahms.
    b) a música africana tradicional.
    c) alguma música tocada por menestréis.

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6 - Exercícios.

6.4 - Varios

  • 1) Do teu ponto de vista, escreve em duas colunas as coisas positivas e negativas sobre a organização familiar cigana.
  • 2) Faz uma lista de dez costumes ou tradições ciganas.
  • 3) Escreve uma pequena história (100 palavras) sobre os costumes e tradições ciganas. Podes usar palavras Romani para a tornar mais autêntica.
  • 4) Revê as palavras da Língua Romani que são usadas actualmente. Escreve numa coluna as palavras que já conhecias e noutra as palavras que acabaste de aprender.
  • 5) Refere os países europeus preferidos dos Ciganos para trabalhar no estrangeiro. Usa o mapa.

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